Médico assassinado foi assessor parlamentar na Câmara de Dourados

Nomeado por vereador no dia 4 de janeiro de 2021, quando ainda era estudante de Medicina, Gabriel Paschoal Rossi foi exonerado em abril de 2022

André Bento


Médico Gabriel Paschoal Rossi foi brutalmente assassinado aos 29 anos (Foto: Reprodução/Redes Sociais)

O médico Gabriel Paschoal Rossi, brutalmente assassinado aos 29 anos em Dourados por encomenda de suposta parceira de crimes de estelionato, já foi assessor parlamentar na Câmara de Dourados.

Natural de Santa Cruz do Sul, no Rio Grande do Sul, ele concluiu a graduação em Medicina pela UFGD (Universidade Federal da Grande Dourados) em março deste ano, mas ainda em 2021 ocupou cargo comissionado no gabinete do vereador Diogo Castilho (PSDB), também médico.

A nomeação no cargo de Assessor Parlamentar IV – (AGP-4) foi feita pela Portaria CMD/RH Nº. 099 de 19 de janeiro de 2021, com efeitos a partir do dia 4 daquele mesmo mês, quando começou a atual legislatura.

O portal da transparência da Casa de Leis detalha que a carga horária era de 220 horas semanais, com remuneração bruta mensal básica de R$ 3.908,79.

A exoneração ocorreu por força da Portaria/CMD/RH Nº. 189, de 04 de abril de 2022, com validade a partir de 1º de abril de 2022.

Quando foi assassinado, Gabriel Paschoal Rossi era médico atuante na cidade, em hospital particular e também na rede pública, na UPA (Unidade de Pronto Atendimento) e Hospital da Vida. O prefeito Alan Guedes (PP) divulgou nota de pesar quando a morte foi confirmada.

Apontados como autores do homicídio foram presos em Minas Gerais e trazidos para Dourados (Foto: Eliel Oliveira/Divulgação)

Nesta terça-feira (8), ao voltar de Pará de Minas, no interior de Minas Gerais, com quatro pessoas acusadas pelo homicídio, o delegado Erasmo Cubas, chefe do SIG (Setor de Investigações Gerais) da Polícia Civil, disse que Gabriel foi assassinado por uma parceira de estelionatos que não queria pagar dívida, identificada como Bruna Nathalia de Paiva, também de 29 anos.

Segundo ele, a mandante teria uma dívida de R$ 500 mil com Gabriel decorrente da parceria golpista e diante de cobranças com ameaças de denúncia do esquema, investiu aproximadamente R$ 150 mil na contratação de Guilherme Augusto Santana, de 34 anos, Keven Rangel Barbosa, de 22, e Gustavo Kenedi Teixeira, de 27, para execução.

Com base no exame feito pelo médico perito, os investigadores acreditam que a vítima teria sido agonizado por pelo menos 48 horas na cama em que foi encontrado morto com as mãos e pés amarrados, em uma residência na Vila Hilda. Além de asfixiar o médico, os autores fizeram uma perfuração no pescoço dele.

As investigações identificaram que além da casa na Vila Hilda, alugada via aplicativo por 15 dias, Bruna alugou outro imóvel na Rua Monte Alegre, por apenas um dia.

“Em depoimentos, chegamos a uma pessoa que o Gabriel tinha contato de Minas Gerais, com quem compartilhava atividade ilícita de estelionato. Identificamos o nome da mulher e quem fez a locação trouxe informação relevante, identificando para nós uma possível outra locação na cidade. Notamos que tinham duas locações na cidade, dias 26 e 27. Um imóvel na Rua Monte Alegre (por um dia) e outro na Vila Hilda (por 15 dias). Com imagens identificamos o grupo chegando na casa da Monte Alegre”, detalhou o delegado Erasmo Cubas.

Para ele, a casa da Vila Hilda foi locada com intenção de executar o médico e deixar o corpo. A PRF (Polícia Rodoviária Federal) identificou que a Bruna chegou a Mato Grosso do Sul de ônibus com três homens compatíveis com os mesmos vistos chegando ao imóvel da Rua Monte Alegre. “Eles estavam em Minas Gerais já no dia 28. Foram embora de avião de Campo Grande, passagem comprada um dia antes do crime”, detalhou.

“O perito acredita que a morte foi segunda [dia 31 de julho]. Agonizou por 48 horas ou mais na cama até morrer. Enfiaram objeto perfurocortante no pescoço. O corpo não tinha sinais de sete dias de morte”, pontuou.

Segundo o chefe do SIG, Bruna investiu aproximadamente R$ 150 mil na contratação dos executores e pagamento das passagens e alugueis porque ela tinha dívida com Gabriel e o médico começou possivelmente ameaçar a entregar o grupo. “Ela tem essa mente criminal bem aguçada. Ela não vai na cena do crime. Ela só coordena”, explica.

Sobre a suposta parceria de Gabriel com Bruna, o delegado aponta um “esquema de fraudes de cartões e fraude de benefícios de pessoas mortas”. “Ele fazia saques e repassava para a quadrilha. Ele conhecida a Bruna pessoalmente e fez a parte do esquema até gerar a quantia maior que ela não queria repassar”, detalhou.

Atraído à casa onde foi morto por Bruna, que teria pedido para ele indicar a um amigo quem poderia vender maconha na fronteira, Gabriel foi torturado e entregou a senha do celular, que acabou usado para mais fraudes.

“Foi feita uma cortina de fumaça de informações de aborto, pedido de dinheiro, contas no nome dele para pedir dinheiro. A Bruna pegou o celular, tem expertise em golpes de estelionato. Leu todas as mensagens e começou a mandar as mensagens para os amigos. Conseguiu esvaziar uma das contas dele, pediu dinheiro e criou outra conta no nome dele”, indica delegado.

Agora, a Polícia Civil vai coletar os depoimentos dos suspeitos e pretende indicia-los pela prática do crime de homicídio qualificado por tortura e sem chance de defesa da vítima.